Quando alguém diz “investidor”, a imagem que aparece costuma ser a mesma. Os números explicam por quê.
Em mapeamento divulgado pela organização Anjos do Brasil, referente a 2022, entre cerca de 8 mil pessoas físicas que aplicam capital próprio em startups, 16% eram mulheres e 3% se autodeclaravam pessoas negras ou indígenas. No cruzamento de gênero e raça, mulheres negras ficavam abaixo de 1% do total.
Quem junta capital no Brasil há mais tempo do que o mercado imagina
A prática de reunir dinheiro coletivamente para comprar liberdade é antiga no país. Em 1820, em Cachoeira, na Bahia, a Irmandade da Boa Morte reunia mulheres negras alforriadas que levantavam capital com a venda de quitutes, doações e as próprias economias para emprestar a mulheres escravizadas, que assim compravam a própria alforria.
Era fundo rotativo, análise de risco e retorno social, com outro nome e sem nenhum dos instrumentos formais de hoje.
Quanto capital passa por essas mãos hoje?
Mulheres negras são o maior grupo do país no cruzamento de gênero e cor, mais de 60 milhões de pessoas segundo o IBGE, e movimentam cerca de R$ 704 bilhões por ano, segundo levantamento do Instituto Locomotiva.
Esse dinheiro circula como consumo. A distância entre consumir centenas de bilhões e decidir para onde o capital vai é o assunto deste texto.
O que trava antes do investimento?
O acesso aos cargos que geram excedente. Nas 500 maiores empresas do país, mulheres negras ocupavam 0,4% dos postos executivos, segundo o Instituto Ethos, e recebiam menos da metade do salário de homens brancos, segundo o Ipea, em levantamento de 2019.
Investir exige sobra. Quem está na base da pirâmide salarial chega ao mercado de capitais depois de atravessar tudo o que vem antes: escolaridade, contratação, promoção, faixa salarial.
O gargalo aparece no mercado financeiro e se forma muito antes dele, na folha de pagamento e na escada de promoção.
Quem está abrindo caminho?
A BlackWin, cofundada por Jessica Rios e Luana Ozemela, foi a primeira plataforma de investimento anjo liderada por mulheres negras no Brasil. Rios veio da Vox Capital; Ozemela fundou a consultoria DIMA e integrou o Laboratório de Inovação Financeira, iniciativa ligada à CVM.
Fora do investimento anjo, Amanda Graciano, economista, acompanhou e acelerou mais de mil startups pelo país, e Lívia Felix atua em desenvolvimento de negócios e em iniciativas de inclusão e diversidade.
O que muda quando o capital muda de mãos?
Muda quem é financiado. Investidor tende a apostar em problema que reconhece, e o repertório de quem decide define que tipo de negócio recebe cheque.
Angela Davis resumiu o mecanismo: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”.
Ampliar quem investe altera quem é investido, e essa é a parte do ecossistema que nenhum programa de aceleração resolve sozinho.
