Poupar exige recusar dinheiro hoje para receber mais depois. Essa troca parece simples no papel e quase ninguém a faz com facilidade, inclusive quem sabe exatamente por que deveria.
A pesquisa em economia comportamental tem uma explicação para isso, e um achado específico sobre um sentimento que muda esse cálculo.
Por que decisão financeira é comportamento?
Porque conhecimento sozinho não produz a decisão. A pessoa sabe que o rotativo do cartão é caro e usa mesmo assim, sabe que precisa de reserva e gasta o décimo terceiro.
Isso acontece porque decidimos por atalho, sob pressão, com o que está na frente. E a forma como a opção aparece muda a escolha, mesmo quando o número é o mesmo.
O que é impaciência financeira?
A tendência a preferir uma quantia menor agora a uma maior depois. Em laboratório isso se mede oferecendo uma escolha entre R$ 50 hoje e R$ 60 em um mês, e variando os valores até encontrar o ponto de virada de cada pessoa.
Quanto mais íngreme essa curva, mais caro fica o futuro. É a mesma disposição que aparece no parcelamento longo e no resgate antecipado de aplicação.
Por que o futuro pesa tão pouco?
Uma linha de pesquisa sugere que o cérebro trata a própria versão futura como se fosse outra pessoa. Hal Hershfield descreveu esse mecanismo como continuidade do eu futuro, em trabalho publicado em 2013 nos Anais da Academia de Ciências de Nova York.
Se a pessoa que recebe o benefício lá na frente é sentida como um estranho, guardar dinheiro para ela se parece com perda. Isso explica parte da dificuldade de poupar para a aposentadoria.
Outros estudos observaram que a tristeza torna essa impaciência mais acentuada, o que coloca um problema prático: os momentos em que decidir bem importa mais são justamente os piores para decidir.
O que o experimento sobre gratidão encontrou?
Em 2014, David DeSteno e colegas publicaram na revista Psychological Science um estudo em que participantes eram levados a um estado de gratidão antes de fazer escolhas entre receber menos agora ou mais depois.
Quem passou pela condição de gratidão se mostrou mais disposto a esperar. O efeito apareceu de forma mais definida do que o de estados positivos genéricos, como alegria.
A gratidão desloca a atenção para o que já existe. Isso reduz a urgência de compensar uma falta, que é o gatilho de boa parte das decisões de consumo por impulso.
Onde esse efeito para?
Na renda. O estudo mediu disposição de esperar em uma escolha controlada, com valores pequenos, em ambiente de laboratório. Nada ali diz que gratidão resolve orçamento apertado.
Quem tem dívida cara em aberto e renda comprometida não está diante de um problema de paciência. Está diante de um problema de taxa e de margem, que se resolve renegociando e reorganizando a fila de pagamento.
O achado vale onde há escolha. Onde não há margem, nenhum estado emocional cria dinheiro que não entrou.
Referências
- DeSteno, D., Li, Y., Dickens, L., Lerner, J. S. “Gratitude: A Tool for Reducing Economic Impatience”. Psychological Science, 2014.
- Hershfield, H. “Future self-continuity: how conceptions of the future self transform intertemporal choice”. Annals of the New York Academy of Sciences, 2013.
