Um curso profissionalizante prepara a pessoa para conseguir a vaga. O que fazer com o dinheiro que vem depois costuma ficar de fora do programa.
No Instituto Profissionalizante Mangueira, na zona norte do Rio, essa parte entra na grade. Todas as turmas passam pelo módulo de educação financeira da Barkus, dos cursos de cabeleireiro e manicure aos de auxiliar de eletricista e operação de logística.
O que é o IP Mangueira?
O Instituto funciona desde 2000 e faz parte do Programa Social da Estação Primeira de Mangueira. Oferece mais de dez cursos gratuitos para jovens e adultos, com foco em entrada e reentrada no mercado de trabalho.
A formação técnica pesa nesse percurso. Um estudo da Fundação Roberto Marinho divulgado em 2022 apontou que jovens com formação técnica no ensino médio têm mais chance de emprego formal e de evolução na carreira que quem concluiu só o ensino médio regular.
Por que educação financeira em um curso de cabeleireiro?
Porque o primeiro salário chega antes de qualquer conversa sobre o que fazer com ele, e as decisões que aparecem nesse momento são caras: parcelamento, cartão, o primeiro financiamento.
Foi o professor Carlos Batalha, conselheiro do IP Mangueira, quem aproximou o Instituto da Barkus. Ele trabalha com o conceito de cidadania financeira, que o Banco Central define como o exercício de direitos e deveres que permite à pessoa gerenciar bem os próprios recursos.
Acesso a educação financeira entra aqui como direito, na mesma prateleira do acesso ao curso técnico, e não como recompensa para quem se comportar bem com dinheiro.
O que o módulo faz dentro da grade?
O módulo é construído a partir da realidade do público atendido, e não aplicado igual em qualquer turma. A coordenadora de cursos do Instituto, a psicóloga Carla Maria Casagrande, descreve o objetivo como capacitar, qualificar, encaminhar e educar no nível financeiro.
"Queremos que essas pessoas pensem em seus futuros, por isso nossa proposta é entender e planejar junto com esse jovem a sua vida pessoal e profissional", diz Carla.
Marielle Gomes fez o curso de cabeleireiro em agosto de 2021 e conta o efeito em termos concretos.
"Antes de passar pelo curso no IP Mangueira eu já fazia minhas anotações, mas sempre faltava dinheiro no final do mês. Hoje em dia é tudo contado, até comprei um planner financeiro. Comecei a entender melhor onde eu mais gastava e descobri que eu e meu marido gastávamos muito em lanche. Não posso falar que hoje em dia sobra dinheiro, mas também não falta."
Por que esse público?
Porque a dívida no Brasil tem endereço. Em agosto de 2026, o endividamento alcançou 85,1% das famílias que recebem até três salários mínimos, contra 72,3% das que recebem acima de dez, segundo a Peic, da CNC. Na inadimplência a distância é maior ainda, 38,8% contra 14,9%.
Quatro anos antes, uma pesquisa do Serasa já mostrava que um quarto da população negativada tinha entre 18 e 30 anos, com concentração em jovens adultos de periferia.
A diferença entre as faixas de renda vem de preço do crédito, margem de orçamento e acesso a informação, três coisas que não se resolvem no plano individual.
O que essa parceria sustenta?
A educação financeira não resolve desigualdade de renda. Ela muda a margem de manobra de quem está aprendendo uma profissão: qual crédito aceitar, qual recusar, quanto cabe na parcela, o que fazer quando falta.
Colocar esse módulo dentro de um curso gratuito, em uma comunidade, com conteúdo montado a partir da realidade daquela turma, é o formato de trabalho que a Barkus leva para os outros programas.
