ESG apareceu em quase toda apresentação corporativa dos últimos anos, virou cargo, virou área e virou linha de orçamento. Em maio de 2026 a regra brasileira que sustentava boa parte dessa pressão mudou de direção.
Em 29 de maio de 2026, a Comissão de Valores Mobiliários revogou a obrigatoriedade do relatório de informações financeiras de sustentabilidade para companhias abertas. A seguir, o que a sigla cobre, o que a mudança alterou e o que sobra de exigência real.
O que cada letra cobre?
O E, de environmental, trata do que a empresa faz com o meio físico: emissão, consumo de energia, água, resíduo, cadeia de fornecimento.
O S, de social, trata das pessoas dentro e ao redor da operação: condição de trabalho, salário, saúde, composição do quadro, relação com a comunidade e com o cliente.
O G, de governance, trata de como as decisões são tomadas: composição do conselho, controle interno, transparência na prestação de contas, mecanismo contra fraude e corrupção.
O G é o que sustenta os outros dois. Sem processo de decisão e sem auditoria, a meta ambiental e a política social viram texto de relatório.
De onde veio a sigla?
De 2004, no relatório “Who Cares Wins”, promovido pelo Pacto Global da ONU. O documento pedia a presidentes de grandes instituições financeiras que incorporassem critérios ambientais, sociais e de governança às decisões de investimento.
A origem explica o endereço. ESG nasceu como linguagem de mercado de capitais, feita para investidor comparar empresas, e não como programa de responsabilidade social.
O que mudou na regra brasileira em 2026?
A Resolução CVM 193, de outubro de 2023, criou o marco brasileiro de divulgação com base nas normas internacionais IFRS S1 e S2. O desenho era progressivo: voluntário a partir de 2024 e obrigatório para companhias abertas nos exercícios iniciados em 1º de janeiro de 2026.
A Resolução CVM 244 desfez essa transição. O reporte passou a ser integralmente voluntário, já para os exercícios iniciados em 2026.
A empresa que escolhe divulgar assume quatro compromissos: declarar adesão expressa às normas do Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade e do ISSB, manter a publicação por no mínimo três exercícios seguidos, arquivar o relatório na CVM dentro do prazo e submetê-lo a asseguração de auditor independente registrado.
A partir de 2027, a companhia que não arquivar o relatório precisa justificar a escolha em comunicado ao mercado.
O que era prazo regulatório virou decisão de posicionamento. Quem publica assume três anos de compromisso e auditoria; quem não publica passa a ter que explicar por quê.
E quem não é companhia aberta?
A regra da CVM nunca alcançou empresa de capital fechado. A cobrança chega por outro caminho: contrato com cliente grande, exigência de banco na concessão de crédito, critério de fundo investidor e requisito de edital público.
Na prática, o fornecedor responde ao questionário ESG do comprador muito antes de pensar em relatório próprio. É a cadeia que transmite a exigência, não a norma.
Como separar prática de fachada?
Pelo tipo de informação que o relatório traz. Compromisso declarado, meta para 2030 e foto de ação voluntária são baratos de produzir.
Série histórica é cara. Um número repetido ano a ano, com a mesma metodologia, mostra direção e permite comparação. É por isso que a asseguração por auditor independente aparece na regra: ela separa o dado verificável da intenção.
O termo greenwashing nomeia essa distância no lado ambiental, e o mesmo mecanismo opera no social toda vez que o relatório troca indicador por narrativa.
Onde a educação financeira entra no S?
Em indicadores que a própria empresa consegue medir sobre o time: adesão e conclusão de programa, adesão à previdência, uso de antecipação salarial, volume de consignado, diferença salarial por gênero e por cor.
Esses números têm duas qualidades raras no S: são coletados internamente e se repetem ano a ano sem depender de pesquisa externa. Quem quer sair da declaração e chegar em série histórica costuma começar por aí. A relação entre dívida e desempenho no trabalho dá a esses indicadores uma leitura operacional, além da reputacional.
