Capacitação dos colaboradores: uma estratégia para reduzir as desigualdades

Equipe Barkus
Time editorial
10 min
|
August 26, 2022
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Uma empresa pode ter política de diversidade escrita, meta de contratação e programa de treinamento anual, e ainda assim pagar valores muito diferentes para pessoas que fazem trabalho equivalente. A diferença quase nunca aparece no organograma. Aparece na folha.

No Brasil, o rendimento médio mensal das mulheres ocupadas é de R$ 2.506, contra R$ 3.115 dos homens, uma diferença de 19,6%, segundo os dados do Censo 2022 divulgados pelo IBGE em outubro de 2025. A seguir, o que esse desequilíbrio tem a ver com capacitação interna, e o que ele não resolve.

Onde a diferença salarial fica maior?

Na ponta de cima. Entre quem tem ensino superior completo, os homens recebem em média R$ 7.347 e as mulheres R$ 4.591, uma distância de 37,5%. Quanto mais qualificação, maior o intervalo.

O recorte por cor ou raça segue o mesmo desenho. Em 2021, o rendimento médio por hora das pessoas ocupadas brancas era de R$ 19,00, contra R$ 10,90 das pretas e R$ 11,30 das pardas, segundo o estudo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, do IBGE. Entre quem tem ensino superior completo, pessoas brancas ganhavam em média 50% a mais que as pretas.

Escolaridade não fecha essa distância sozinha. Ela persiste entre pessoas com o mesmo diploma, o que desloca a explicação da qualificação individual para o que acontece dentro das empresas.

Por que contratar bem não basta?

Porque a distribuição muda conforme se sobe. Em 2021, pessoas pretas e pardas eram 53,8% dos trabalhadores ocupados no país e ocupavam 29,5% dos cargos gerenciais. Na faixa de rendimento mais alta desses cargos, eram 14,6%.

Uma empresa pode acertar a contratação na base e reproduzir o mesmo funil ano após ano. O estrangulamento está na promoção.

O que muda quando a ação sai da data comemorativa?

Rosa no 8 de março, logotipo colorido em junho, palestra em novembro. São ações de calendário, e o calendário acaba.

Tarso Oliveira, fundador da consultoria de diversidade Troca, que organiza processos seletivos voltados a grupos sub-representados, resumiu assim em entrevista à Barkus em 2022: “A gente precisa ter dados sobre diversidade para implementar estratégias de diversidade. Mais importante do que as datas comemorativas, é criar ações pautadas na realidade daquela empresa”.

Que dado a empresa precisa ter antes de agir?

O próprio. Censo interno, questionário respondido pelo time, faixa salarial cruzada com gênero, cor, cargo e tempo de casa.

Esse mapeamento costuma mostrar o que a política escrita não mostra: em que nível as promoções param, quem pede demissão antes, qual área concentra a diferença. Sem esse retrato, qualquer programa vira aposta cara.

O que a capacitação resolve?

Ela muda o repertório de quem participa e abre acesso a funções que antes exigiam uma formação que a pessoa não tinha como pagar.

“A educação está diretamente ligada ao desenvolvimento socioeconômico, mesmo dentro da realidade das empresas”, disse Oliveira na mesma entrevista. “Quando a gente põe a educação dentro desse processo, a pessoa fica muito mais preparada para os desafios que, antes, ela não poderia enfrentar tão bem.”

Educação financeira entra no mesmo lugar. Decisão sobre crédito, dívida, benefício e reserva é decisão que a pessoa toma sozinha, com a informação que tem, e o custo de decidir mal recai sobre quem tem menos margem. A relação entre dívida e desempenho no trabalho torna isso um assunto de gestão, e não só de vida pessoal.

E o que ela não resolve?

Capacitação não corrige faixa salarial, não muda critério de promoção e não redistribui cargo. As três são decisões de gestão, tomadas por quem define orçamento e política de pessoas.

Treinamento sem revisão de salário e de critério de promoção muda o que a pessoa sabe e não muda onde ela chega.

Onde a agenda ESG entra nisso?

No S, de social. Tudo o que está acima vira indicador reportável: composição por nível hierárquico, diferença salarial por gênero e cor, taxa de promoção, rotatividade por grupo.

O risco conhecido é a fachada. A prática de exibir compromisso sem sustentação nos números já tem nome no debate ambiental, greenwashing, e o equivalente social aparece toda vez que o relatório traz intenção no lugar de série histórica. Vale entender o que a sigla ESG cobra de fato antes de montar o relatório.

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Índice

Diferença salarial; Cargos gerenciais; Além das datas; O dado interno; O que resolve; O que não resolve; Agenda ESG

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Diretor executivo da Barkus, graduado em Administração pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e mestre em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ

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