Um manifesto sobre privilégios, poder de escolha e educação financeira.

9 de maio de 2020
Por Nath Dumit

Essa é a história de duas mulheres: Amanda Oliveira, de 21 anos, e Luiza Saintclair, de 19.

Amanda, jovem negra, mora na baixada fluminense, mais especificamente em Nova Iguaçu. Luiza, jovem branca, mora na zona sul do Rio de Janeiro, na Gávea. Amanda estudou em colégios públicos durante toda a vida, enquanto Luiza estudou em um colégio particular de bairro, também durante todo o período escolar.

Realidades e disparidades no acesso

Ambas conseguiram bolsa para uma reconhecida faculdade particular do Rio, depois de muito esforço. Para passar, Amanda estudou horas a fio apoiada pelos professores do pré-vestibular comunitário e decidiu estudar Serviço Social, enquanto Luiza cursou um dos melhores cursinhos pré-vestibular do Rio de Janeiro e optou por Relações Internacionais. Amanda obteve bolsa graças ao ProUni e escolheu seu curso baseada nas “boas” lembranças que tivera com a assistente social que deu suporte a ela e a mãe, na época em que seu pai saiu de casa. Luiza conseguiu a bolsa através da boa colocação no ENEM e optou por RI pois sempre sonhou em conhecer o mundo todo.

Trabalho, Obrigações e perspectivas

Amanda trabalha desde os 14 anos, sempre no Centro da cidade ou na zona sul, então já estava acostumada a encarar horas de transporte para cumprir a jornada diária. Sua mãe nunca se opôs a jornada dupla da filha, pois segurar as contas da casa não era fácil para uma mãe sozinha. Luiza, por outro lado, estava decidida a trabalhar no período extra natal de um shopping perto de sua casa porque, além de fazer seu próprio dinheiro extra, teria descontos nas roupas da loja. Sua mãe, quando soube, ficou muito irritada. Dizia que isso poderia atrapalhar os estudos na faculdade e que daria um dinheiro extra a ela, caso fosse necessário.

Amanda e Luiza se conheceram no segundo período, em uma das disciplinas obrigatórias para os cursos de Serviço Social e Relações Internacionais. Apesar das diferentes vidas, se deram bem logo de cara e começaram a se ajudar na matéria. Perceberam, durante o convívio, que tinham algo em comum: eram lésbicas. Luiza contou, durante um dos intervalos, como tinha sido “sair do armário” para a sua família: um momento bem tenso. Ela havia se preparado para o pior, guardando o dinheiro da mesada por uns meses para ter mais segurança caso a família não aceitasse sua sexualidade. No fim das contas, houve um rebuliço, mas nada que tivesse modificado o tratamento de seus pais. Ela se sentiu bastante acolhida. 

Amanda, ouvindo aquela história, se encheu de coragem e decidiu contar a sua família que gostava de meninas. Depois de chegar em casa, chamou sua mãe para conversar e abriu seu coração. Ela reagiu de uma forma bem diferente: começou a gritar, dizendo que não tinha criado uma menininha para agir como homem por aí, e a expulsou de casa. Amanda não tinha reservas financeiras, não sabia para onde ir, nem por onde recomeçar.

Educação financeira e poder de escolha

Há muitas pessoas que precisam se virar desde cedo e sofrem com jornadas duplas e triplas no Brasil. Infelizmente, a desigualdade de raça, gênero e sexualidade podem dificultar ainda mais a vida e a ascensão das nossas Amandas. Imagina o quanto a sua vida poderia ser diferente caso tivesse acesso a educação financeira desde cedo e soubesse quais os primeiros passos dar em momentos como esse, de crise?

Esqueça tudo que já te disseram sobre dinheiro: não é sobre poder de compra, e sim poder de escolha. Amanda, que já havia batalhado bastante em sua vida, pode ser privada de um sono tranquilo, saúde emocional, respeito e estabilidade financeira por conta da desigualdade estrutural de nossa sociedade. Ela, assim como milhões de brasileiros, teve sua vida dificultada por não ter acesso à conhecimentos e recursos financeiros. Juntar dinheiro, mesmo que pouquinho, durante os anos que trabalhara poderia ter dado a Amanda mais tranquilidade para fazer suas próprias escolhas.

Ter poder de escolha ainda é uma possibilidade de poucos, e isso é um grande problema. Queremos que todos tenham a oportunidade de se planejar e criar o futuro que quer para si. Acesso a educação financeira não pode ser um golpe de sorte que grupos com mais oportunidades têm acesso. Pensar no futuro não pode ser um privilégio, é um direito que todos devem ter. Compartilhe esse post até que todas as “Amandas” que você conhece saibam que têm a quem recorrer. <3

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